Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia: “- Eu amo o teatro paraense!”. Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia, ao menos: “- Eu amo o cinema paraense!”. Não posso. Não amo. Nunca amei. Amo o cinema feito em super-8 por Vicente Cecim nos anos 70, e alguma coisa dos filmes de Líbero Luxardo, mas teatro paraense, nunca tive uma fagulha. Até conhecer Rafael Couto e sua trupe, até imergir no mundo dos Perifeéricos.
Me perdoem os críticos teatrais da região – se houver algum; e, aliás, não perdôo o silêncio sepulcral se houver – mas sou um amador, falarei como manda o script dos amadores: Eu amo o espetáculo teatral, que vi 3 vezes às 20 horas da noite no Ver-o-rio, intitulado “Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol”.
Teatro de autor com grupo de atores! Parece pouco? O máximo que tinha visto até então era teatro de esquetes com atuações profissionais. Rafael Couto não fez apenas a peça mais bem escrita e dirigida que eu já vi na cidade, mas a que tem o universo ficcional mais fascinante, os personagens mais dramaticamente poéticos e a busca teatral mais eloqüente. Criação, e amor pela sua arte. Do autor, e dos atores.
Simplesmente fui encantado pelo texto. As palavras ditas pelos personagens são de uma antítese tão sábia que a juventude do dramaturgo parece dinamitar o conceito tolo de maturidade. Pois sobre o que é Perifeéricos senão sobre a própria Vida? Tocando em essências, sonhando os delírios, desvelando os sentimentos, problematizando os conceitos, atingindo o realismo interno da fantasia.
E qual melhor meio de expressar sentimentos, sensações e pensamentos sobre os “meros fragmentos de um arquiteto entediado” senão pelo próprio delírio da poesia? Poesia que é feita de vida em corpos que se movimentam e fazem sons, proferindo gestos, olhares, gargalhadas, onomatopéias, palavras: TEATRO: coreografia dos corpos, saída e entrada de cena, esquecimento do ator na persona viva, baile de máscaras, rito dionisíaco, duelo argumentativo, cena melodramática, brincadeiras, jogos, metateatro formam a dança lúdica tecida de luar onde flutuam os personagens inesquecíveis e apaixonantes, contados e esquecidos, e agora vagando entre o sol e o mar, para serem vistos, entre o dia e a noite, na eternidade de alguns minutos de espetáculo.
E como se não bastasse o elenco iluminado: Ícaro Gaya, Nanã Vasconcelos, Alma Gabriela, Karllana Clodovil, Leonardo Bahia e o próprio Rafael Couto, o espetáculo ainda conta com a participação especial do músico italiano Stephano e sua maravilhosa escaleta e a belíssima simplicidade da direção de arte de Maurício França. A sensação de quem já conhece os trabalhos anteriores de Ícaro, Karllana e Nanã é de que são os personagens de suas vidas. Dermond, Fleur e Odorin são realmente fascinantes, e era preciso um trabalho de corpo e espírito que não poderia ter sido melhor realizado por outras pessoas. O personagem do velho Satyr é “coringado” por Leonardo Bahia e Rafael Couto, cada qual com um espírito tal; o primeiro mais sombrio e bizarro e o segundo mais mestre, grandiloqüente e embriagado. Alma Gabriela, em sua estréia teatral, encarna a personagem do mundo real, Rosa. A escolha dela para o papel coube como uma luva na proposta de um ser que se difere bastante daqueles outros seres lúdicos. A cada apresentação Alma parece perder mais sua insegurança de estreante e entender sua personagem em corpo e espírito. A trupe que ela parece querer entrar é a do teatro, e a sensação é que começou com o pé direito.
A idéia de Rafael é seguir com os Perifeéricos, fazendo várias apresentações em vários formatos e encenando estórias desse incrível mundo. Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol é apenas o primeiro (e incrivelmente bem sucedido) episódio da série. O batizado foi feito, em grande estilo. Ainda não posso dizer que amo o teatro paraense, mas posso dizer – de boca cheia - que amo os Perifeéricos. Ao terminar a temporada de espetáculos, me sinto triste e desesperado, me perguntando como eu poderei seguir sem Dermond, Odorin, Fleur, Satyr e Rosa perto de mim.
sábado, 3 de abril de 2010
Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol
terça-feira, 30 de março de 2010
Tragam-me as entranhas de Martin Scorsese
Tem grandes cineastas que fazem obras-primas a vida toda, e quanto mais velhos, melhores. E grandes cineastas que, apesar de continuarem num nível de “grandes cineastas”, não repetem mais a genialidade da juventude.
Na minha opinião, o último grande filme do grande cineasta Martin Scorsese foi Cassino, em 1995. E lá se vão 15 anos. E não porque ele tenha feito filmes medíocres diante do contexto contemporâneo, mas medíocres diante de sua obra, e da história do cinema. Sim, por que acredito que um cineasta como Scorsese deve ser analisado nesta seara: a das obras importantes para história da arte que ele ajudou a colocar no lugar onde se encontra.
Gosto de “Ilha do Medo”, mas, tal qual “Os infiltrados”, acredito que não acrescenta uma vírgula na história da sétima arte. Também compreendo que nem todo filme deve ser revolucionário, etc. Mas admito que sempre espero mais de Scorsese, assim como sempre espero menos de Tarantino. Não sei explicar perfeitamente o “por que” dessa minha tendência, mas sempre que sento para assistir um novo filme de Quentin, o subestimo, por que tenho a intuição que ele já disse o que tinha pra dizer, que não vai mais me impressionar... e sempre ele me surpreende. Com Scorsese é justamente o contrário, nos seus últimos filmes (os únicos da sua carreira que vi na tela grande) sempre o superestimei, sentei para assistir a nova obra de um dos maiores gênios do cinema... e sempre ele me decepcionou.Por estimá-lo como um dos grandes, fico na dúvida se o problema é com o meu olho míope, minha curta percepção. Refleti bastante se deveria escrever ou não. Vejo isso nas críticas por aí, esse medo em levantar a voz contra o canonizado (e cinéfilo gente boa) Scorsese, que deu tanto prazer e conhecimento a toda uma geração. Se é heresia levantar a voz para Scorsese, ué, vamos lá. Me agrada a conduta de homens como Glauber Rocha, que detonaram obras e autores e, na revisão, as resgatou e as idolatrou. Mudar de opinião é obrigação de qualquer crítico, denota evolução.
Vejo milhares de pontos para se colocar em evidência na obra, se o caso for elogiá-la. É o mesmo problema que encontro nos filmes de Truffaut. Peguemos “A noiva estava vestida de preto” por exemplo, é um filme cheio de idéias áudios-visuais interessantíssimas, idéias narrativas geniais, idéias, idéias, idéias... Truffaut era um homem tão inteligente, um dos mais inteligentes que existiram na história do cinema, mas na hora de ser o metteur-en-scène não tinha aquela manha, fazia cenas interessantes até, tocantes até, mas não atingia um Hitchcock, creio que nem um Chabrol. Por que, se ele sacava tudo de cinema? Questão de talento, acredito; como ele mesmo pregava: “questão de vocação”.
E quando se tem essa vocação, esse talento nato? E ele ainda é potencializado com a apreensão cada vez mais específica da técnica, alimentado pela apreensão cada vez mais abrangente da cultura? Como, paradoxalmente, vai se esvanecendo? Como a experiência pode não significar sabedoria, mas velhacaria? São questões que não serão respondidas, eu acredito, mas que são reconhecidas, em casos como o de Dario Argento, e o de Martin Scorsese.

Felipe Cruz disse que “parece que ele deixou de ser gênio pra ser inteligente”. Isso me lembra o Truffaut, na sua passagem da crítica pra realização. Dos pontos que posso considerar interessantes no filme todos são características de um homem inteligente, estudioso, amante do cinema, erudito da arte. Pegar o tema da loucura não apenas como conteúdo, mas como forma da obra é o mínimo para um artista (quem assim não o fizesse que nem se considerasse como tal), além do mais ‘Taxi driver’ nos mostra a diferença do “como” e não do “que” ele pode fazer. O “cinema de palimpsesto” que Scorsese, assim como Tarantino, tem feito não pode ser julgado como qualidade, mas como característica autoral, do mesmo modo, no caso de Scorsese, o mundo visto pelos olhos do personagem principal. Tais marcas acompanham o cinema desse autor, mas o filme não pode ser “bom” porque as contém, se assim for, todo filme de Scorsese é “bom” a priori. Falo dessas coisas porque vi o filme ser aplaudido por conter essas características, e não vejo louvor nenhum, já que é o homem que dirigiu Touro Indomável quem está atrás das câmeras.
Falemos essencialmente da poética cinematográfica, esqueçamos um pouco a psicanálise e a história, o roteiro de reviravolta “emocionante”, a trama surpresa, o trauma de culpa, a confusão de identidade. Cito a grande cena do filme, para estabelecer a diferença com o resto – com o que o resto do filme não é. A cena da apresentação do personagem de Max Von Sydow. O flashback, os movimentos de câmera, o plongée, os papéis voando, a decupagem, a morte, o sangue... coisa de cineasta. Aliás, é um filme de cineasta, e a primeira cena também deixa isso claro. Mas onde sobra vigor falta rigor. Acredito que o filme de Martin fracassa, mais um.
Comentei com o Felipe Cruz que o que salvaria o Scorsese era acontecer uma crise no cinema americano, neo-maccarthismo, ele ser exilado, fazer cinema independente. Aí ele ia ter que fazer filme fodido e morrendo de amor pelo cinema. Acho que o roteiro, o Di Caprio, Hollywood, tudo ta atrapalhando. Eu sei que tudo o que ele queria era ser apenas um diretor da grande indústria, como seus ídolos Ford, Hawks, Hitchcock. Mas acredito que se ele olhasse para seus outros ídolos Rossellini, Bava, o seu rumo ia mudar, seu cinema ia encontrar seu habitat natural.
Como amo o cinema de Martin Scorsese! Amo tanto que estragaria a sua vida só pra ele fazer um daqueles filmes de novo. Daqueles das entranhas.
sexta-feira, 26 de março de 2010
É preciso se esclarecer
É preciso esclarecer. A crítica também é necessária. Sobre Belém, sobre o cinema em Belém – de novo. Primeiro, sobre o circuito comercial de cinema, e no âmbito uma reflexão sobre a minha geração, e o que vier disso. Brainstorm. É preciso esclarecer, façamos juntos – agradeço quem ajudar.
Sou de uma geração de cinéfilos que não freqüenta demasiado o cinema. Parece absurdo colocar na mesma frase que se é cinéfilo e que não freqüente muito o cinema, mas esclareço: A minha é a geração da internet, da democratização total da cultura universal, da posse a um clique, do auto-didatismo, do cineclubismo. Me sinto muito feliz por fazer parte dessa geração: a dos baixadores e compartilhadores. Todos os dias álbuns, filmes, livros, quadrinhos e fotos são baixados e vão sendo armazenados nos DVDs e HDs que coleciono; os compartilho, sempre e com todos. Ir ao cinema, só se for pra ver Cinema, tem muita coisa na fila em casa para assistir. Não me interessa pagar R$ 8,00 para ir no Moviecom ver um filme insipiente e ainda sentir raiva devido a qualidade patética da exibição - aliás como uma rede de cinemas não contrata engenheiros que tenham noção alguma de estrutura e projecionistas que não sabem equalizar o som ou enquadrar a imagem eu nunca vou compreender. Corroborar com uma rede de cinemas que não prioriza nem a qualidade da exibição dos filmes é dormir num ninho de cobras, não falar sobre isso, é indulgência preguiçosa e letargia crítica (isso é uma auto-crítica tardia).
Sou, também, de uma geração de cinéfilos que não freqüenta demasiado a locadora. Obviamente pelo preço. Na Fox Vídeo, locadora que tem o melhor acervo da cidade, a locação – de catálogo – é R$ 5,50; comprando-se um DVD por R$ 1,00 e gravando os arquivos em formato .avi, dá pra se ter, por R$ 5,00, “pra sempre”, uma média de 25 filmes.
No fim o melhor mesmo é ficar em casa, baixando e vendo, emprestando e compartilhando. Locar apenas quando sai uma edição especial de algum grande filme, cinema apenas quando entra alguma obra que diga algo cinematograficamente. Acredito, sobretudo, que nada substitui o ritual da sala escura, e, mesmo com a ultrajante exibição do moviecom, ainda vale a pena ver Cinema, toda vez que possível.
A questão da exibição em Belém, aliás, é preocupante, não apenas nos circuitos de exibição comercial, mas até nos cineclubes (onde se presume que existem amantes pra caralho de cinema). Não to querendo puxar o tapete de ninguém, só a orelha. As exibições que são feitas no Olympia e no IAP são vergonhosas. Os técnicos no Olympia não se preocupam com o enquadramento e jogam o filme de qualquer jeito. Fui assistir “Aconteceu naquela noite” lá e assisti o filme em trapézio, e não em quadrado como deveria ser. No IAP a imagem vaza e se perde quase 20% da imagem, a história mais interessante que eu tenho sobre esse fato foi quando Vicente Cecim foi me mostrar os novos filmes dele lá e simplesmente sua experimentação foi gorada pelo defeito tecnológico. Ele acabou me narrando que sua intenção no filme era fazer a ação toda ocorrer naquele canto do quadro que não podíamos enxergar por causa do vazamento da imagem. Não to querendo puxar o tapete de ninguém, só a orelha. O filme merece respeito.
Outra ferramenta da minha geração é o Microsoft Word (onde escrevi este artigo). Ele faz o papel, entre outras coisas, de corretor ortográfico. Neste texto ele não reconheceu as palavras em português “cineclubismo”, “cineclube”, “projecionista”, “baixadores” e “compartilhadores”. Cada geração de professores tem suas vontades, suas realizações. A da minha é a de que estas palavras sejam conhecidas por todos na próxima geração, assim como queremos que ator, atriz, oscar, fotografia sejam tão facilmente compreendidas quanto enquadramento, mise-en-scène, decupagem e movimento de câmera.
Pretendo escrever sobre Ilha do Medo e Scorsese no próximo texto.
Mateus Moura.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Profissão: cineclubista
Acabamos de exibir Luzes da cidade para mais de 30 crianças na periferia de Santarém. O equipamento - que pertence à Fapespa e ao saudoso Chico Weyl - é garantia de botar sessão onde a gente quiser (a APJCC ainda sonha com essa autonomia - e acreditamos que não está longe).
A obra-prima de Charlie Chaplin não estava na programação. Estava programado "A grande ilusão" de Jean Renoir. Pro obra do destino, e da incomunicabilidade, o espaço foi avisado que a sessão seria infantil. Enquanto "montamos o circo" discutimos: e então, passar ou não passar o filme do francês? No fim, coincidentemente, um plano B surgiu no meu porta-dvd: Charles Chaplin... Renoir sem dúvida aprovaria a substituição, e se sentaria feliz no meio da criançada.
Nenhuma das presentes tinha ido ao cinema, só tinham visto filmes na tv. Mudo, preto e branco, várias novidades. A maioria tão nova que não tinha iniciado o bê-a-bá, eu fiquei na condição de leitor dos poucos letreiros do filme.
Risadas, atenção, maravilhamento... foi um sonho. No fim, a tentativa de conversa... lona! Como eu tinha imaginado, esse é o último nível do aprendizado, a didática com o público infantil é só pra samurai faixa vermelha mesmo. Um dia a gente chega lá.
O filme não foi discutido ou analisado. As crianças só se manifestaram - com um gesto, como Carlitos ensinou - para responder a uma pergunta: "- Vocês querem mais? Queriam ver mais cinema, mais filmes como esse?". A resposta foi o bom e velho "ok".
Mateus Moura.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
The Royal Tenembauns & Nico
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Luto por Eric Rohmer.
"Assim como o japonês Yasujiro Ozu e o italiano Roberto Rossellini, o francês Eric Rohmer prefere a vida mais do que o espetáculo. E é por isso que faz filmes: para falar melhor do que não vemos mas sentimos, para ver melhor o que vemos mas não sentimos. É da natureza - dos seres e das coisas – que a câmera, o olho, a mente e o coração de Rohmer se debruçam, para captar, contemplar, analisar e se emocionar."
Achei esse início de sinopse que eu comecei a fazer quando iria exibir pela primeira vez um filme do Rohmer. Seria no cineclube Aliança Francesa, no ano passado, dentro do ciclo Desbravando a Nouvelle Vague. O filme era a obra-prima Ma nuit chez Maud (Minha noite com ela). Ia comentar o filme comigo o professor Ernani Chaves. Acasos do destino, acabou não acontecendo. Rohmer morreu aos 89 anos, produziu bastante, sempre o mesmo filme. Foi um cineasta iluminado, discreto. Sussurou, calmo. Lúcido, solitário.
Imagem de "Les amours d'Astrée et de Céladon", seu último filme, um dos mais belos da década.
Mateus Moura.

