domingo, 4 de abril de 2010

FULLERIANAS PARTE 2

[The Naked kiss, 1964]

“Nenhum mortal é feliz até o fim, nenhum, nem afortunado, pois nunca nasceu alguém imune à dor”. (Eurípides)


Samuel Fuller dá ao mundo em 64 a continuação de Shock Corridor, a mesma atriz (a soberba Constance Towers), que viveu uma dançarina de cabaré no filme de 63, interpreta uma prostituta agora em 64. Em “Paixões que alucinam”, seu amante, enlouquecido pelo prêmio Pulitzer de jornalismo, enlouquece ao tentar solucionar um caso de assassinato em um manicômio. No decorrer da narrativa ela afunda junto com ele, mas em lágrimas e tragédia. Constance Towers é a heroína fulleriana por excelência. Diferente do herói de Sam, duro e sem ilusões, a heroína, apesar de dura também, têm ilusões, e não lhe é permitido, como no caso masculino, o cobertor da insanidade. O mundo e o Destino sempre a derrubam. Ela afunda, mas limpa as lágrimas, levanta, e segue. Sam Fuller foi um grande construtor de grandes metáforas. Assim como em Shock Corridor, - fazendo alusão ao manicômio - a pequena cidade de Grentville em The Naked Kiss é microcosmo da América. Com atuações magníficas, planos inesquecíveis, metalinguagem salutar com os gêneros hollywoodianos, o artista maldito assina seu último filme nos EUA antes de partir para a Europa. Ninguém critica mais a América do que os americanos. Fuller nos revela, com sua câmera desnudadora, a podridão da hipocrisia americana. Com seu habitual irônico humor negro, nos apresenta a cidade com uma bela faixa, que nos faz rir: “Desfile de moda para crianças deficientes. Clínica Ortopédica de Grentville”. O contraste que o diretor estabelece entre o “submundo” e o “outro mundo” é exagerado arbitrariamente - mais uma carta irônica na manga do sátiro. Quando Kelly (Constance Towers), mulher dos dois mundos, se integra ao outro mundo, as cenas atingem o paroxismo do confortável. A dona de casa onde Kelly se hospeda é tão doce que chega a ser risível. Mas nada é simples nos filmes de Samuel Fuller, nenhum personagem é apenas um estereótipo. Todos são símbolos, mas carregam vida. Todos sofreram ou sofrem alguma tragédia. A dona de casa, por exemplo, é solitária, o homem que esperava não sobreviveu à guerra. Griff (Anthony Eisley) é como Kelly, transita entre os dois mundos. É mais frio, mais desconfiado, sem ilusões, mais podre, mais honestamente podre: o herói fulleriano por excelência. O diretor, analista emocionado do ser humano e suas paixões, trata, pela primeira vez na história do cinema, do tema da pedofilia. Grent (Michael Dante), supostamente um homem caridoso, rico, moralmente perfeito, é também um pedófilo. Apaixonado por Kelly, aceita se casar, mesmo ciente do seu passado “bombom”. Kelly, porém, quando aceita, desconhece seu presente doentio. Grent acredita que eles – anormais – podem se acertar, ser felizes e aceitar as inclinações mórbidas, assim como os passados sujos. Ela não entende assim, não aceita sua doença, não aceita acordo, nem sequer cogita a possibilidade. Como um doce piano que esparrama a melodia triste da anunciante tragédia, ela ergue a mão e o mata. Seu mundo rui mais uma vez. Quanto tudo parecia perfeito como um musical de Hollywood, num happy end com música-tema, o mundo ruiu, de novo. É o noir.


A construção da cena da morte de Grent é o atestado da genialidade do diretor, e permite a anatomia de seu estilo incomparável. A sequência começa com toda a alegria de Kelly caminhando entre crianças com sua simples caixa de papelão contendo seu vestido de noiva embaixo do braço. Ao adentrar a casa de Grent a melodia que toca é a que nos emocionou minutos atrás com sua mensagem de esperança e amor (mesmo sendo paraplégicos – marcados pelo destino – podemos amar e ser amados, mesmo sendo uma ex-prostituta do submundo). Fuller nos faz acreditar, nos emociona, nos comove. Há um close no rosto encantado de Kelly, a câmera flutua, ela está no céu, tudo está perfeito Não há corte, o seu rosto se modifica, de repente fica muito sério, ela olhou para baixo e viu algo que não lhe agradou. Não sabemos o que é. O contracampo nos mostra o close de uma menina. Uma panorâmica nos mostra o saltitar daquela inocente criança que sai porta a fora. Voltamos ao close de Kelly, Brent – também em close – aparece. Seus rostos preenchem a tela, é o confronto de faces, nada mais importa no mundo para encampar. O campo/contracampo acelera denotando a tensão, e elevando a emoção. Ela está furiosa, ele continua com sua cara que estranhamos desde o começo e não sabíamos o que era. Kelly – com sua experiência de submundo – deveria ter acreditado mais em seus instintos (que atestaram o “naked kiss” de Brent: a marca do pervertido). Mas aquela mulher não consegue não sonhar, ela precisa de ilusões. Tudo que ela queria era sair do submundo, onde ela sabe que a felicidade é impossível. Ele – que vive no outro mundo – porém, também faz parte do submundo... descobrimos que ninguém está isento de sujeira, a única diferença do submundo para esse é que aqui tudo é velado. Com a mesma emoção que Sam Fuller nos elevou à crença na beleza do ser humano, ele nos joga no abismo das culpas psicológicas, das doenças sociais, do ódio, da dor e da tragédia. Numa das imagens mais poéticas da história do cinema, Kelly, após derrubar Grent com uma telefonada em sua cabeça, enrola o vestido que deixou cair durante o ato, e redobra o véu de noiva – símbolo da pureza – que passou a velar a pedófilo, já defunto no chão.


Kelly é presa por assassinato. Durante a correria para provar a sua inocência, velhos desafetos vem acertar suas contas, incriminando-a. Griff - o bruto sentimental - é ambíguo o tempo todo quanto às suas crenças acerca do caráter de Kelly. Ele sabe que ela é que nem ele: habita os dois mundos, mas não pertence a nenhum. Ele sabe que ela é capaz do pior e do melhor. Não há parâmetros. Herói num segundo e anti-herói no outro. Esse é o ser humano: o que viveu alegrias e tragédias: o adulto. Só uma criança, que ainda não aprendeu a hipocrisia, pode atestar a verdade. É o que acontece, e Kelly é absolvida. Está livre para deixar a cidade. Na saída, a população, imóvel, a olha com ambigüidade. O primeiro plano da cidade volta, a faixa que nos faz rir novamente é o golpe irônico final do maldito e eterno Sam Fuller: “Piquenique anual da câmara do comércio para crianças deficientes. Clínica Ortopédica de Grantville”... créditos... ela segue... fade-out.


Mateus Moura.

FULLERIANAS PARTE 1

[The Naked kiss, 1964]

Jazz. Como um trumpete rasgante ela surge em cena dando bolsadas na câmera-subjetiva-dele: o cafetão; que, bêbado, derrubando-lhe a peruca, cai, suplicando misericórdia. Ela espirra água em sua face e do bolso arranca-lhe o dinheiro. Estaria ela roubando-o? Logo sabemos que não. É uma prostituta, uma mulher do submundo; é escória, mas tem princípios. Pega o que lhe é de direito, rasga as evidências de sua existência, apanha a peruca, e ajeita-a (em quadro)... créditos... Um cineasta mostra o seu cartão de visitas: a violência da emoção, a originalidade gritante, o câmera em busca da poesia, Sam Fuller contra o banal. Sua personagem entrará num novo mundo, numa cidade distante. Seu desejo lhe guiará para outra rotina (uma que não espelhe notas, uma garrafa e uma cama para o resto da vida). De prostituta a enfermeira de deficientes físicos. Ela irá sorrir, irá sonhar. O mundo parecerá melhor. Parecerá.

The constant power of Constance Towers

Através de textos - curtos longos médios sinopses ensaios artigos poemas whatever - vou balbuciar sobre o maior dos cineastas (ao lado de alguns - poucos).

p.s: sempre quis saber o que Beethoven acharia desse filme se tivesse vivo.

Mateus Moura.

sábado, 3 de abril de 2010

Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol

p.s: este texto foi escrito em dezembro de 2009, está sendo postado agora por questões de saudade e apelo para que o espetáculo volte e mais pessoas tenham a oportunidade de assití-lo.


Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia: “- Eu amo o teatro paraense!”. Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia, ao menos: “- Eu amo o cinema paraense!”. Não posso. Não amo. Nunca amei. Amo o cinema feito em super-8 por Vicente Cecim nos anos 70, e alguma coisa dos filmes de Líbero Luxardo, mas teatro paraense, nunca tive uma fagulha. Até conhecer Rafael Couto e sua trupe, até imergir no mundo dos Perifeéricos.
Me perdoem os críticos teatrais da região – se houver algum; e, aliás, não perdôo o silêncio sepulcral se houver – mas sou um amador, falarei como manda o script dos amadores: Eu amo o espetáculo teatral, que vi 3 vezes às 20 horas da noite no Ver-o-rio, intitulado “Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol”.
Teatro de autor com grupo de atores! Parece pouco? O máximo que tinha visto até então era teatro de esquetes com atuações profissionais. Rafael Couto não fez apenas a peça mais bem escrita e dirigida que eu já vi na cidade, mas a que tem o universo ficcional mais fascinante, os personagens mais dramaticamente poéticos e a busca teatral mais eloqüente. Criação, e amor pela sua arte. Do autor, e dos atores.
Simplesmente fui encantado pelo texto. As palavras ditas pelos personagens são de uma antítese tão sábia que a juventude do dramaturgo parece dinamitar o conceito tolo de maturidade. Pois sobre o que é Perifeéricos senão sobre a própria Vida? Tocando em essências, sonhando os delírios, desvelando os sentimentos, problematizando os conceitos, atingindo o realismo interno da fantasia.
E qual melhor meio de expressar sentimentos, sensações e pensamentos sobre os “meros fragmentos de um arquiteto entediado” senão pelo próprio delírio da poesia? Poesia que é feita de vida em corpos que se movimentam e fazem sons, proferindo gestos, olhares, gargalhadas, onomatopéias, palavras: TEATRO: coreografia dos corpos, saída e entrada de cena, esquecimento do ator na persona viva, baile de máscaras, rito dionisíaco, duelo argumentativo, cena melodramática, brincadeiras, jogos, metateatro formam a dança lúdica tecida de luar onde flutuam os personagens inesquecíveis e apaixonantes, contados e esquecidos, e agora vagando entre o sol e o mar, para serem vistos, entre o dia e a noite, na eternidade de alguns minutos de espetáculo.
E como se não bastasse o elenco iluminado: Ícaro Gaya, Nanã Vasconcelos, Alma Gabriela, Karllana Clodovil, Leonardo Bahia e o próprio Rafael Couto, o espetáculo ainda conta com a participação especial do músico italiano Stephano e sua maravilhosa escaleta e a belíssima simplicidade da direção de arte de Maurício França. A sensação de quem já conhece os trabalhos anteriores de Ícaro, Karllana e Nanã é de que são os personagens de suas vidas. Dermond, Fleur e Odorin são realmente fascinantes, e era preciso um trabalho de corpo e espírito que não poderia ter sido melhor realizado por outras pessoas. O personagem do velho Satyr é “coringado” por Leonardo Bahia e Rafael Couto, cada qual com um espírito tal; o primeiro mais sombrio e bizarro e o segundo mais mestre, grandiloqüente e embriagado. Alma Gabriela, em sua estréia teatral, encarna a personagem do mundo real, Rosa. A escolha dela para o papel coube como uma luva na proposta de um ser que se difere bastante daqueles outros seres lúdicos. A cada apresentação Alma parece perder mais sua insegurança de estreante e entender sua personagem em corpo e espírito. A trupe que ela parece querer entrar é a do teatro, e a sensação é que começou com o pé direito.
A idéia de Rafael é seguir com os Perifeéricos, fazendo várias apresentações em vários formatos e encenando estórias desse incrível mundo. Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol é apenas o primeiro (e incrivelmente bem sucedido) episódio da série. O batizado foi feito, em grande estilo. Ainda não posso dizer que amo o teatro paraense, mas posso dizer – de boca cheia - que amo os Perifeéricos. Ao terminar a temporada de espetáculos, me sinto triste e desesperado, me perguntando como eu poderei seguir sem Dermond, Odorin, Fleur, Satyr e Rosa perto de mim.

Mateus Moura.