sábado, 7 de abril de 2012

Rascunhos de uma pedagogia a partir do cinema (I)

Exercício 1: ver A grande testemunha de Robert Bresson. Virgem, acompanhar todo o seu fluir. Depois ler bastante acerca, tanto descrições do seu enredo, quanto críticas mais profundas. Quando tiver certeza que o filme já foi todo lido pelo seu intelecto, voltar ao filme, revê-lo (aqui você já sabe tudo o que vai acontecer, não haverá mais preocupações em tentar adivinhar o que sucederá), você já pode ver o filme de novo, não precisará tentar enxergá-lo. Aqui não precisa mais ler, pode contemplar. Trocar a pré-ocupação pela ocupação. Agora, o próximo passo é ouvi-lo. Deixar o filme rodar, escutá-lo apenas, de olhos fechados - adentrar seu mundo sonoro. Depois o mesmo apenas às imagens. E por último, revê-lo, som-imagem (quantas vezes quiser – sempre será diferente, e mais profundo).

Exercício 2: aplicar a mesma metodologia à Intriga Internacional de Alfred Hitchcock.


Mateos.

Assim é: como o título

Só mudando o sentido das palavras poderemos entender o real sentido da existência delas. O mesmo a qualquer linguagem que engendramos no contato com as coisas.

Nós (nós) nem precisamos realmente mudar o sentido (com o nosso Poder), apenas Quedar diante das coisas, esperar observar o movimento: as diversas formas que elas tomarão.
Que inenarrável beleza é demorar ante uma imagem: examinar o Tempo.

Sozinhos ademais plenos na noite estrelada teremos sempiternamente ela: a linguagem, como companhia e companheira.

talvez seja um vício talvez virtude

Sei apenas, que nessa relação Um existe dentro do Outro;

há, naturalmente, uma inter-dependência. é o Cosmo (palavra & sentido)

Eu a escuto
Ela me escuta
e quando,
Uníssonos,
cantamos no silêncio,
somos virgem, gêmeos.

Ela diz quando me escuta:
-Não digo nada de novo. Com a experiência percebi que coisas valiosas da humanidade não eram generosamente ouvidas por causa das pedras do pré-conceito e da distração. Com o que aprendi quis convencer, humildignamente, através da beleza cintilantemente ilusória do barril de embriaguez lúcida chamada linguagem, o que todo mundo sabe dentro e o esquecimento velou.

E eu, quando a escuto, discuto:
-Ter um posicionamento crítico verdadeiro não é defender um ponto de vista, mas convidar, humildignamente, o outro a habitar as veredas da materna pensamenta.

Depois transamos, às vezes gozamos ao mesmo tempo às vezes não, mas sempre nos satisfazemos. E depois dormimos. Eu sonho com ela, ela move meu sonho, e nos esquecemos no son(h)o de um agora outro (outrora).

E aí o dia amanhece, e tenho que sair da caverna do ninho nosso amor, porque preciso caçar, ganhar, pagar. Ela fica triste,

Assim é: fa minto

como uma melodia

Mateos

domingo, 4 de março de 2012

Meu herói favorito é Jesus Cristo

"Pai, por que me abandonastes?" (Bíblia Sagrada - Novo Testamento)

O conceito de ‘anti-herói’ é uma falácia, não significa nada. Quanto ao ‘herói’, este nunca foi nada senão um problema (de Édipo a Beatrix Kido). Essa idéia de ‘herói’ como modelo jamais existiu – não nos grandes mitos. Quando nascem os primeiros heróis? Quem são? Aquiles, Ájax, Odisseu? São eles modelos!? São sofredores dilacerados, multifacetados, invejosos, vaidosos, fortes, belos, guerreiros, assassinos, conduzidos pela Paixão e o Destino, mortais, semi-deuses... como pode um ser que na sua própria gênese é algo entre homem e deus ser algo que não a própria contradição? O herói que não sofre e não vivencia em seu périplo ficcional esta dimensão paradoxal entre o divino e o humano, o eterno e o frágil, o sagrado e o abismo, a iluminação e a dúvida não merece ser chamado como tal.

Quando nasce o primeiro ‘anti-herói’? Que diabos significa ser um ‘anti-herói’? Conceitualmente entendemos que é o oposto do herói. Logo, o ‘anti-herói’ só pode ser um modelo (de virtude, bondade, honra, beleza). Ora, pensei que talvez o único ‘anti-herói’ da História da Estória fosse Jesus Cristo. Mas, se assim fosse, que Graça teria?

Mateos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

pequenas palavras de Grandes lições


Lembro que a primeira vez que me deparei com esse cartaz achei o mais belo que já tinha visto. Algo nessa imagem me emocionou profundamente - sem eu poder explicar o porquê (como uma melodia). Não conhecia o autor, não conhecia o filme.
Ano passado conheci Jean Eustache com "A mamãe e a puta", e cansei de dizer que foi o filme mais belo que assisti em 2011. Há muitos eu emprestei, e muitos não entenderam o porquê de tanta empolgação.
É que Eustache é daqueles revolucionários que sussurram, daqueles vanguardistas que simplesmente filmam como os pioneiros.
A grande lição de Eustache para quem tiver ouvidos para ver e olhos para ouvir é que o cinema não é arte. Categoricamente afirmar isso é um tão pouco que quase nada. O cinema é um desses mistérios que o homem descobriu há mais de um século e que deu à humanidade a oportunidade de repensar os sentidos da visão e da audição, os sentimentos da memória e tudo que advém disso, a relação com o limite e a duração, a fantasia e o sonho, a documentação e a história, a realidade e a gravação (linguagem + ontologia).
A grande lição do cinema não se dá de melhor forma que não nessa oportunidade de ver se desvelar os pontos de vista que a câmera de Jean Eustache ocupa para cada cena, ou de contemplar o momento precioso que nossas retinas aguardam liturgicamente a bênção de cada fade-out.

“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: “Mas, escuta, temos de registrar tudo isso”, ela respondeu: “Mas enfim, são coisas que não são bonitas”. “Isso não me interessa”, respondi, “é preciso registrar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes”. Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmeras, pedi a Théadière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmeras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm na praia” (Jean Eustache)

Mateos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Conduzir

“Be a human being, and a real hero” (College)

Os apocalípticos que durmam ou suicidem-se de uma vez, o Cinema respira a plenos pulmões.

E façamos libações aqui apenas à faceta do Cinema Clássico. Do Novo Cinema Clássico: Quentin Tarantino, James Gray, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Bong Joon Hoo, Greg Mottola... Nicolas Winding Refn, ele também é um cineasta, de gênero (e de estilo). Um dos caras desse universo contemporâneo.

Drive.


No Tarô de Marselha, o Arcano VII (o Carro), é a segunda lâmina onde surge o ser humano enquanto figura, a primeira é o que o antecede, o Arcano VI (o Enamorado). Do I ao V, contando com O Louco (a carta sem número – ou o 0), todos representam em suas figuras arquétipos, seres sobre-humanos. Na sexta carta, pela primeira vez se apresenta um drama: o homem surge, e com ele o conflito, representado pelo signo da decisão, da escolha, a ação do livre-arbítrio que precisa vir a ser a partir do julgamento de um caráter. Nasce o ego, e com ele o humano – no sentido em que mais o conhecemos. E com o homem, o ego e o conflito, nasce o drama.


O Carro é a segunda figura em que o ser humano surge, agora porém não se trata de um ser em conflito. Porta uma coroa que o torna régio (ligado à divindade), um cetro que o torno poderoso (pelo simples signo), e um olhar que revela a sua força serena (a verdadeira). Não é mais o ego (aquele que deve decidir), é o herói (a consciência humana em busca da auto-descoberta). Todos os símbolos contidos no tarô revelam centelhas da humanidade, mas essas duas em especial parecem traduzir todo o estofo de que são formados os mitos antropocêntricos. E, de quebra, são as cartas que, por analogia, interpretam da forma mais pura a beleza deste filme desse diretor dinamarquês.

Títulos, palavras, assim como as elipses e os intervalos, parecem revelar muitas vezes seus sentidos através de veredas suaves. Como o nome do Arcano VII é 'O Carro', o nome do “conto de fadas” de Refn é 'Drive'. Do personagem principal – da lâmina e da película – não nos é revelado o nome próprio. Ficamos com sua imagem, apenas. Não precisamos de mais nada. É que assim como o personagem d’O Carro, o motorista deste filme não quer sussurrar acerca do ego, mas do Eu. Não é um humano, é um mito – já é o Enamorado, agora é também o Condutor (ou o Conduzido pelo Eu?). Faz o que tem que ser feito. É movido pelo sentimento regido pela ética – subsumida a sensação, a emoção, o intelecto, a intuição e a arte. Para conhecê-lo devemos, como espectadores, assistir seus atos. No Cinema assim postulou Hawks, mas existem outras facetas dessa linguagem...

Drive. Uma única palavra simboliza tudo o que este filme representa em sua essência: Que Diretor! O ritmo de suas transições, as respirações de suas cenas de ação (interior ou exterior), a melodia de seus banhos de luz e sombra, a apoteose de suas câmeras lentas, suas sobreposições, seus contracampos guardados no silêncio, sua mise-en-scéne. Sim, de novo, “pôr em cena” – não há como não se inebriar com mortes tão belas: são poemas visuais, descrições dramáticas que atingem o estado pictórico mais sublime!

Do “novo tradicional”, Drive é uma das navalhas mais rigorosa e sensivelmente forjadas, atravessa-nos as veias, causa-nos vertigem, adentram o nosso sangue. Acompanhar esse balé de imagens-movimento reacendeu o meu fascínio por esse cinema que a todos contaminou.

E me deu vontade, mais uma vez (mesmo que distante recentemente desse cinema), de louvar novamente os velhos mestres: Hawks, Ford, Lang, Walsh, Preminger, Hitchcock, e Leone, Melville, Siegel, Hughes, Ferrara. Mas não devo cair no saudosismo, assim como Refn e todo o grupo de cineastas que citei mais acima não cai. Lembrando a célebre sentença de Henri Langlois, “o cinema é um produto comercial e como tal deve ser queimado; mas atenção, queimado pelo fogo interior”. Assim renascem das cinzas todos esses novos mestres. Clint os acompanha. De Michael Mann, Nicolas Wedding Refn é o filho mais singular. E a Juliana Maués tava certa: Drive realmente é um dos grandes filmes de 2011.

Mateos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

asas aves homens máquinas vôos

Marey - o caçador de almas - com seu rifle
capturava os animais no campo da eternidade.
Embalsamador do intervalo, enquadrava o ladro.
Vampiro amador, colecionador de instantes,
iluminado pelo alvo, mirou o átimo.
Na prata encontrou o vôo, alçou o ouro.
Entre o negativo e o positivo foi o pólo,
magnético ôntico ótico.
Inventou o primeiro cativeiro-paraíso.
Lá, domesticou com cuidado
os primeiros fantasmas.
E alquimizou seus rastros estáticos,
em êxtase.
Ave, às asas Marey
que souberam como ninguém
engaiolar aves.

Mateos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O que está fora de campo é como o que está dentro de campo. Não 2, nem 1 (nem 3 - imperatriz); é: 0

1º o link:

http://www.youtube.com/watch?v=RIKOBzEuyGY&feature=youtu.be


Só uma coisa supera a realidade: a realidade na eternidade.

Quando não importam mais gramáticas, linguagens, técnicas,

apenas revelações.


Nem um milhão de signos poderiam expressar todo

o campo semântico

da fenda, que o abismo do tempo suga para

um em si.


O extraordinário só pode surgir no ordinário,

no intervalo dos fluxos (também fluxo);

no sagrado do presente.

É só um milagre.


... enteogenia a partir da substância Realidade,

em liturgia deste lírico em máquina colhendo-se o Eu,

Parto

lár

no dia 04/01/2012.


Mateos.


p.s: mais um “texto deixaràstros”, imundo de bruxuleios