domingo, 4 de março de 2012

Meu herói favorito é Jesus Cristo

"Pai, por que me abandonastes?" (Bíblia Sagrada - Novo Testamento)

O conceito de ‘anti-herói’ é uma falácia, não significa nada. Quanto ao ‘herói’, este nunca foi nada senão um problema (de Édipo a Beatrix Kido). Essa idéia de ‘herói’ como modelo jamais existiu – não nos grandes mitos. Quando nascem os primeiros heróis? Quem são? Aquiles, Ájax, Odisseu? São eles modelos!? São sofredores dilacerados, multifacetados, invejosos, vaidosos, fortes, belos, guerreiros, assassinos, conduzidos pela Paixão e o Destino, mortais, semi-deuses... como pode um ser que na sua própria gênese é algo entre homem e deus ser algo que não a própria contradição? O herói que não sofre e não vivencia em seu périplo ficcional esta dimensão paradoxal entre o divino e o humano, o eterno e o frágil, o sagrado e o abismo, a iluminação e a dúvida não merece ser chamado como tal.

Quando nasce o primeiro ‘anti-herói’? Que diabos significa ser um ‘anti-herói’? Conceitualmente entendemos que é o oposto do herói. Logo, o ‘anti-herói’ só pode ser um modelo (de virtude, bondade, honra, beleza). Ora, pensei que talvez o único ‘anti-herói’ da História da Estória fosse Jesus Cristo. Mas, se assim fosse, que Graça teria?

Mateos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

pequenas palavras de Grandes lições


Lembro que a primeira vez que me deparei com esse cartaz achei o mais belo que já tinha visto. Algo nessa imagem me emocionou profundamente - sem eu poder explicar o porquê (como uma melodia). Não conhecia o autor, não conhecia o filme.
Ano passado conheci Jean Eustache com "A mamãe e a puta", e cansei de dizer que foi o filme mais belo que assisti em 2011. Há muitos eu emprestei, e muitos não entenderam o porquê de tanta empolgação.
É que Eustache é daqueles revolucionários que sussurram, daqueles vanguardistas que simplesmente filmam como os pioneiros.
A grande lição de Eustache para quem tiver ouvidos para ver e olhos para ouvir é que o cinema não é arte. Categoricamente afirmar isso é um tão pouco que quase nada. O cinema é um desses mistérios que o homem descobriu há mais de um século e que deu à humanidade a oportunidade de repensar os sentidos da visão e da audição, os sentimentos da memória e tudo que advém disso, a relação com o limite e a duração, a fantasia e o sonho, a documentação e a história, a realidade e a gravação (linguagem + ontologia).
A grande lição do cinema não se dá de melhor forma que não nessa oportunidade de ver se desvelar os pontos de vista que a câmera de Jean Eustache ocupa para cada cena, ou de contemplar o momento precioso que nossas retinas aguardam liturgicamente a bênção de cada fade-out.

“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: “Mas, escuta, temos de registrar tudo isso”, ela respondeu: “Mas enfim, são coisas que não são bonitas”. “Isso não me interessa”, respondi, “é preciso registrar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes”. Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmeras, pedi a Théadière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmeras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm na praia” (Jean Eustache)

Mateos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Conduzir

“Be a human being, and a real hero” (College)

Os apocalípticos que durmam ou suicidem-se de uma vez, o Cinema respira a plenos pulmões.

E façamos libações aqui apenas à faceta do Cinema Clássico. Do Novo Cinema Clássico: Quentin Tarantino, James Gray, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Bong Joon Hoo, Greg Mottola... Nicolas Winding Refn, ele também é um cineasta, de gênero (e de estilo). Um dos caras desse universo contemporâneo.

Drive.


No Tarô de Marselha, o Arcano VII (o Carro), é a segunda lâmina onde surge o ser humano enquanto figura, a primeira é o que o antecede, o Arcano VI (o Enamorado). Do I ao V, contando com O Louco (a carta sem número – ou o 0), todos representam em suas figuras arquétipos, seres sobre-humanos. Na sexta carta, pela primeira vez se apresenta um drama: o homem surge, e com ele o conflito, representado pelo signo da decisão, da escolha, a ação do livre-arbítrio que precisa vir a ser a partir do julgamento de um caráter. Nasce o ego, e com ele o humano – no sentido em que mais o conhecemos. E com o homem, o ego e o conflito, nasce o drama.


O Carro é a segunda figura em que o ser humano surge, agora porém não se trata de um ser em conflito. Porta uma coroa que o torna régio (ligado à divindade), um cetro que o torno poderoso (pelo simples signo), e um olhar que revela a sua força serena (a verdadeira). Não é mais o ego (aquele que deve decidir), é o herói (a consciência humana em busca da auto-descoberta). Todos os símbolos contidos no tarô revelam centelhas da humanidade, mas essas duas em especial parecem traduzir todo o estofo de que são formados os mitos antropocêntricos. E, de quebra, são as cartas que, por analogia, interpretam da forma mais pura a beleza deste filme desse diretor dinamarquês.

Títulos, palavras, assim como as elipses e os intervalos, parecem revelar muitas vezes seus sentidos através de veredas suaves. Como o nome do Arcano VII é 'O Carro', o nome do “conto de fadas” de Refn é 'Drive'. Do personagem principal – da lâmina e da película – não nos é revelado o nome próprio. Ficamos com sua imagem, apenas. Não precisamos de mais nada. É que assim como o personagem d’O Carro, o motorista deste filme não quer sussurrar acerca do ego, mas do Eu. Não é um humano, é um mito – já é o Enamorado, agora é também o Condutor (ou o Conduzido pelo Eu?). Faz o que tem que ser feito. É movido pelo sentimento regido pela ética – subsumida a sensação, a emoção, o intelecto, a intuição e a arte. Para conhecê-lo devemos, como espectadores, assistir seus atos. No Cinema assim postulou Hawks, mas existem outras facetas dessa linguagem...

Drive. Uma única palavra simboliza tudo o que este filme representa em sua essência: Que Diretor! O ritmo de suas transições, as respirações de suas cenas de ação (interior ou exterior), a melodia de seus banhos de luz e sombra, a apoteose de suas câmeras lentas, suas sobreposições, seus contracampos guardados no silêncio, sua mise-en-scéne. Sim, de novo, “pôr em cena” – não há como não se inebriar com mortes tão belas: são poemas visuais, descrições dramáticas que atingem o estado pictórico mais sublime!

Do “novo tradicional”, Drive é uma das navalhas mais rigorosa e sensivelmente forjadas, atravessa-nos as veias, causa-nos vertigem, adentram o nosso sangue. Acompanhar esse balé de imagens-movimento reacendeu o meu fascínio por esse cinema que a todos contaminou.

E me deu vontade, mais uma vez (mesmo que distante recentemente desse cinema), de louvar novamente os velhos mestres: Hawks, Ford, Lang, Walsh, Preminger, Hitchcock, e Leone, Melville, Siegel, Hughes, Ferrara. Mas não devo cair no saudosismo, assim como Refn e todo o grupo de cineastas que citei mais acima não cai. Lembrando a célebre sentença de Henri Langlois, “o cinema é um produto comercial e como tal deve ser queimado; mas atenção, queimado pelo fogo interior”. Assim renascem das cinzas todos esses novos mestres. Clint os acompanha. De Michael Mann, Nicolas Wedding Refn é o filho mais singular. E a Juliana Maués tava certa: Drive realmente é um dos grandes filmes de 2011.

Mateos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

asas aves homens máquinas vôos

Marey - o caçador de almas - com seu rifle
capturava os animais no campo da eternidade.
Embalsamador do intervalo, enquadrava o ladro.
Vampiro amador, colecionador de instantes,
iluminado pelo alvo, mirou o átimo.
Na prata encontrou o vôo, alçou o ouro.
Entre o negativo e o positivo foi o pólo,
magnético ôntico ótico.
Inventou o primeiro cativeiro-paraíso.
Lá, domesticou com cuidado
os primeiros fantasmas.
E alquimizou seus rastros estáticos,
em êxtase.
Ave, às asas Marey
que souberam como ninguém
engaiolar aves.

Mateos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O que está fora de campo é como o que está dentro de campo. Não 2, nem 1 (nem 3 - imperatriz); é: 0

1º o link:

http://www.youtube.com/watch?v=RIKOBzEuyGY&feature=youtu.be


Só uma coisa supera a realidade: a realidade na eternidade.

Quando não importam mais gramáticas, linguagens, técnicas,

apenas revelações.


Nem um milhão de signos poderiam expressar todo

o campo semântico

da fenda, que o abismo do tempo suga para

um em si.


O extraordinário só pode surgir no ordinário,

no intervalo dos fluxos (também fluxo);

no sagrado do presente.

É só um milagre.


... enteogenia a partir da substância Realidade,

em liturgia deste lírico em máquina colhendo-se o Eu,

Parto

lár

no dia 04/01/2012.


Mateos.


p.s: mais um “texto deixaràstros”, imundo de bruxuleios

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Travessias 2011

Não é simplesmente porque se utilizam livremente das novas tecnologias para construir linguagem que Film socialisme e Pacific são os dois grandes filmes do ano, mas porque nos atualizam imagens da percepção.

Tudo parte da ética. O filme do francês manda pro caralho os direitos autorais e qualquer idéia capitalista de propriedade intelectual de qualquer imagem. O filme do brasileiro pro caralho o roteiro e a direção (apesar dele parecer não se dar conta disso nos créditos). O primeiro, de tão consciente em suas operações, parece atingir o inconsciente coletivo, e o segundo, partindo do inconsciente coletivo (e subconsciente individual), parece nos levar à consciência de compreensão dos engodos (alienantes e/ou maravilhosos) de uma era.

Film Socialisme é extremamente filosófico, filológico, arqueológico, é estudo ontológico de um pesquisador-artista, sobre o cinema em si e sobre a civilização (que produz Imagens – memória – História - segredo). É criação total em todas as fases do processo: do planejamento à adição de imagens de outrem, da gravação à criação de sentidos a partir da montagem. É alquimia constante numa busca incessante, de novo [Godard] ao novo, ao único; de novo extraindo de si (e do ato de produzir imagens) tudo o que se pode extrair (de reflexões, emoções, experimentações, errâncias). Jean-Luc Godard é = a autor audiovisual. Defendeu tal premissa quando crítico e praticou quando cineasta – mais que ninguém. Mas não só de autores vive o audiovisual – e o mesmo sabe disso mais que ninguém -; o audiovisual vive apenas de imagens em movimento. À câmera a cultura é indiferente.

Filmes capitalismos. Os dois estão a bordo, tematizam a Viagem, de como ela transparece uma civilização (da informação, da indústria cultural, do entretenimento, das mídias sociais, da dispersão, do capital). Mas sobre o que versam em essência os narradores dessas Odisséias? Qual vossa Moby Dick? Talvez tudo remonte aos soviéticos: àquele Encouraçado. Eisenstein, Vertov, Kuleshov: o cinema é montagem?

Pacific, enquanto obra, inicia de fato o seu trabalho apenas nessa fase última do que se costuma enxergar de processo cinecriativo. Há na verdade, antes de tudo, uma idéia que impulsiona tudo (o projeto): pedir para os passageiros daquele cruzeiro para Fernando de Noronha, as suas gravações pessoais para a construção de um “documentário” [sic]... a brincadeira mesmo, entretanto, começa na Montagem.

O que é o “diretor”? Se é aquele que limita, que faz escolhas, que represa para que a obra siga o curso que ele acha mais conveniente, pode até ser que Marcelo Pedroso seja o DIRETOR de Pacific, afinal ele fez a escolha de pedir as imagens depois que elas já tivessem feitas, com claras intenções de direcionar o filme para uma estética onde contemplamos uma cinegrafia intuitiva livre de diversas personalidades (crianças, idosos, casados, solteirões) que hoje tem em sua mão – de todos os modelos – essa máquina que grafa o movimento da realidade em um suporte. Entretanto lastimo a chance que o Marcelo, ao creditar-se como "diretor, roteirista e montador", perdeu de dar o valor real para um certo estado de criação amiúde negligenciado... ao meu ver o Marcelo é mesmo o MONTADOR – e isso é tudo! Concordo que se Pacific tem um AUTOR é Marcelo Pedroso, mas o âmago de sua forma provém justamente do fato de prescindir de DIREÇÃO pra existir. “Documentário” também não me agrada... esses termos todos parecem estar caducos demais (há muito tempo)! Foi pela falta de DIREÇÃO e por não ser um DOCUMENTÁRIO que pudemos entrar em contato com um momento cinematográfico tão fascinante na construção de um personagem para câmera como faz o pernambucano fanfarrão, ou um momento de realidade tão fresco quanto a briga das crianças na areia, com o lorinho zombetando sua irmã e o pai a se divertir na câmera, ou a criança “marmotando” com o zoom os pés do vovô, ou ainda a cinegrafia subjetiva do casal apaixonado, exalando amor em cada movimento de câmera ou naqueles planos tão longos onde não se cansam de filmar um o corpo do outro e às vezes pousam a câmera para beijar-se.

É fato, ademais, que um certo olhar deslocou todas essas imagens de seu contexto ordinário e as sistematizou ao seu gosto. E certamente, sem essa intervenção, elas não ganhariam tal estatura significativa (que mais que revelar coisas novas revelam as próprias coisas-imagens). Enfim, tudo apenas milagre da justa-posicação [lembro aqui o "mot juste" Flaubert]. MONTAGEM – não meramente no sentido dos livros didáticos de linguagem cinematográfica, mas no sentido último que Eisenstein desencavou; no sentido mesmo de uma forma como o pensamento age.

Marcelo Pedroso agiu, neste fenômeno cinematográfico, muito mais como agiria o arquétipo do Montador; e provou, que para o cinema existir (mesmo enquanto “obra de arte”), não necessita do Diretor. Que o Embusteiro, necessariamente, não precisa errar pelas estradas para encontrar a criação, mas tão-somente atuar em seu escuro laboratório, decantando em ouro os metais do dia-a-dia.

Existem vários tipos de cinema. O que ficou mais canônico em termos de crítica, glorifica o “auteur” como responsável real do filme e o plano como unidade mínima (logo máxima) da linguagem cinematográfica. Além do “cinema do plano”, há ainda o “cinema do fotograma”, o “cinema da imagem”...

Quem é o responsável essencial de Pacific? Assim como em Film Socialism: a Humanidade – que produz imagens. É essa a luz que encanta as duas personalidades, cada uma ao seu modo;

é ela

que

bruxuleia inconstante, engendra mirações,

segreda mistérios, floreia emoções,

revela vulgaridades,

realidades,

idades,

eternidades,

limites.

E o Cinema é esse monstro maravilhoso que engole todos os saberes e a própria realidade e reflete em luz a projeção de Um inefável.

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Novas formas, enquanto espectador, de vivenciar uma experiência cinematográfica. É à estas obras, hoje, que cito a minha admiração nestes quaisquer textos e rankings, que sugerem, apenas, ao outro que compartilha atenção, um olhar a mais. Em 2011 foram, além destes dois, Cópia Fiel do Kiarostami, Tio Boonmee do Apichatpong, Árvore da vida de Malick, A fuga da mulher-gorila de Felipe Bragança & Marina Meliande e Os monstros dos Irmãos Pretti & Primos Parente.

p.s: se esses textos que balbucio parecem um pouco distantes das maravilhosas convenções de coesão límpida + metáforas claras + argumentação silogística + afirmações categóricas, admito que é por falha minha. É que in-voluí: deixei a volição de espetáculo pra ensaiar somente. Do jogo é buscado um pouco além do elo com o devir; e dessa escassez fagulhas (à prova de pedra). A obscuridade significativa à clareza explicativa. É questão de búfalos à noite, em lugar de touros pelo chifre. Da respiração tem vários exercícios...

Mateos.

Um texto como sinto a forma de Totoro

A arte (da animação) de Haio Miyazaki é a prova universal irrefutável de que o espírito é mais essencial que o corpo, de que a beleza numa figura animal (motor + instinto / inclui-se o humano) provém principalmente de seu movimento (Graça) e de que a criação é o caminho mais óbvio ao primeiro.

Criar o novo é um pleonasmo retórico que Haio Myiazaki serenamente desdenha, o Animador reconhece que a eternidade se encontra precisamente quando se cria o antigo. Não obstante, do incidente da personalidade, naturalmente refratam-se formas únicas. Nelas há, ordinariamente, a expressão. Essa expressão, para este artista, é o resultado de uma brincadeira que ele pinta com acuidade perfeccionista. No seu embornal de cores todo o espectro cósmico ulterior: Vontade, Amor, Necessidade, Liberdade, Sonho, Inteligência, Justiça, Cultura, Natureza... ele parece ser um dos poucos que realmente enxergam/traduzem fagulhas do Mundo (a totalidade das coisas). Suas obras parecem sempre conduzir-nos, como num sonho alquímico, a esse incêndio chamado Imaginação.

A poesia, ou a construção-livre, se dá sem dúvida não no âmbito do completo ineditismo. Fabricar esse algo é simplesmente estabelecer novas relações a partir do existente. Essa relação entre Ponyo e Sosuke, por exemplo, não existe; ela é. Compreendemo-la porque somos humanos, e não porque assistimos à vida tão-somente. Poderíamos chamar de Amor, outros de Amizade, outros ainda de Paixão... são nomes... Passion, Friendship, Amore... admiramos um único fenômeno, rizomático por excelência.

E dessa forma Miyazaki vai revelando formas, traçando o universo...

Mateos.