quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Profissão: cineclubista


Acabamos de exibir Luzes da cidade para mais de 30 crianças na periferia de Santarém. O equipamento - que pertence à Fapespa e ao saudoso Chico Weyl - é garantia de botar sessão onde a gente quiser (a APJCC ainda sonha com essa autonomia - e acreditamos que não está longe).
A obra-prima de Charlie Chaplin não estava na programação. Estava programado "A grande ilusão" de Jean Renoir. Pro obra do destino, e da incomunicabilidade, o espaço foi avisado que a sessão seria infantil. Enquanto "montamos o circo" discutimos: e então, passar ou não passar o filme do francês? No fim, coincidentemente, um plano B surgiu no meu porta-dvd: Charles Chaplin... Renoir sem dúvida aprovaria a substituição, e se sentaria feliz no meio da criançada.
Nenhuma das presentes tinha ido ao cinema, só tinham visto filmes na tv. Mudo, preto e branco, várias novidades. A maioria tão nova que não tinha iniciado o bê-a-bá, eu fiquei na condição de leitor dos poucos letreiros do filme.
Risadas, atenção, maravilhamento... foi um sonho. No fim, a tentativa de conversa... lona! Como eu tinha imaginado, esse é o último nível do aprendizado, a didática com o público infantil é só pra samurai faixa vermelha mesmo. Um dia a gente chega lá.
O filme não foi discutido ou analisado. As crianças só se manifestaram - com um gesto, como Carlitos ensinou - para responder a uma pergunta: "- Vocês querem mais? Queriam ver mais cinema, mais filmes como esse?". A resposta foi o bom e velho "ok".

Mateus Moura.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

The Royal Tenembauns & Nico


Ouvindo The fairest of the seasons.

Mateus: - Eita da porra misteriosa né? não parece nem voz de homem, nem de mulher...
Felipe: - É que é voz de anjo, não tem sexo.

Na mente, em slow, flashs do sentimento-imagem de uma das cenas mais belas dessa década.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Luto por Eric Rohmer.

Fenece um dos maiores gênios da História do Cinema.

"Assim como o japonês Yasujiro Ozu e o italiano Roberto Rossellini, o francês Eric Rohmer prefere a vida mais do que o espetáculo. E é por isso que faz filmes: para falar melhor do que não vemos mas sentimos, para ver melhor o que vemos mas não sentimos. É da natureza - dos seres e das coisas – que a câmera, o olho, a mente e o coração de Rohmer se debruçam, para captar, contemplar, analisar e se emocionar."

Achei esse início de sinopse que eu comecei a fazer quando iria exibir pela primeira vez um filme do Rohmer. Seria no cineclube Aliança Francesa, no ano passado, dentro do ciclo Desbravando a Nouvelle Vague. O filme era a obra-prima Ma nuit chez Maud (Minha noite com ela). Ia comentar o filme comigo o professor Ernani Chaves. Acasos do destino, acabou não acontecendo. Rohmer morreu aos 89 anos, produziu bastante, sempre o mesmo filme. Foi um cineasta iluminado, discreto. Sussurou, calmo. Lúcido, solitário.

Imagem de "Les amours d'Astrée et de Céladon", seu último filme, um dos mais belos da década.

Mateus Moura.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Aquele querido mês de agosto (ou: o mistério que chamamos cinema)



Filme belíssimo o do português Miguel Gomes e sua equipe Som e Fúria. Experimental, faz um
filme único.
"Documentário", "ficção", "fake-documentário", "cinema direto", "cinema verdade", "fábula", "cotidiano". Chato é ficar tentando explicar logicamente onde o filme se encaixa teoricamente. Projeto filmado em dois agostos na região da Beira - um para registrar oniricamente a realidade, outro para confabular amadorísticamente a ficção - a experiência audio-visual é pra deixar qualquer um encantado.
As sobreposições feitas são das mais belas que já vi na sala escura - pictoria e dramaticamente falando. O choro da menina é pra chorar. Filme imperdível no Cine Líbero Luxardo (que estava vazio hoje), apenas até domingo. Está entre os melhores que vi nos últimos tempos.
Um filme que começa com galinhas fugindo de uma raposa e termina com a equipe do filme filosofando sobre som; que tem cenas adolescentes de um primeiro amor físico e inúmeros números de conjunto musical; que propõe o jogo e a observação, o encantamente e a imersão, o ouvido e a visão. Toda a falsidade e verdade que constituem o mistério que chamamos cinema.

Mateus Moura.

domingo, 8 de novembro de 2009

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans



Nicholas Cage encarna o personagem herzogiano por excelência: o que atinge extremos. A competência e a virilidade dessa encarnação é tamanha que acreditamos ter ressuscitado em Klaus Kinski, misturado com o Jimmy Stewart dos faroestes de Mann, e o próprio Cage em sua aventura lynchiana.
O ritmo também é frenético! Um homem que se afunda em drogas; dos répteis aos peixes, seu lugar é a bestialidade, o contato irracional com o mundo, o contato primeiro; Herzog e seu personagem são apenas uma coisa: a besta humana – e se orgulham por isso.
O local que o cineasta escolhe para filmar é o negativo de seu personagem. New Orleans, devastada pelo furacão Katrina, é algo que obviamente vai chamar a atenção de Herzog. Seu interesse sempre foi pela natureza, pela destruição, pela loucura, pelo inexplicável, pela alucinante realidade. Seu mundo ficcional sempre encontrou na geografia do mundo real seu positivo.
O plano-sequência de Cage esperando fora da boite para apreender drogas até o seu fim é de uma força e um realismo violento que a televisão até hoje não consegue chegar.
Filme tomado pela coca, como fora o Scarface de De Palma e o Desespero de Veronika Vozz de Fasbinder, o de Herzog parece conjugar justamente onde esses nervos (alemães e americanos) se tocam, e como produzem faíscas.

Mateus Moura.

p.s1: este texto foi postado no link: http://guia.folha.com.br/cinema/ult10044u647604.shtml
p.s2: este texto e o resto da cobertura que eu fiz da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo serão publicados na revista eletrônica Gotaz (http://gotaz.com.br/). Em breve...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O gênio de Quentin Tarantino, e o filme do ano

Escalpelado, brutalmente escalpelado; quem ama cinema perde a cabeça, perde a razão - é queimado nas chamas da experiência audio-visual. A razão volta mais tarde, as palavras voltam a fazer sentido, e a sintaxe confusa do pensamento balbucia: "-É, acho que essa é a obra-prima desse filho da puta!". Aldo Raine concorda.

Falar que Quentin Tarantino é o maior cineasta do nosso tempo se tornou pouco, depois de Inglourious Basterds, Fuller, Leone, Hawks, Fulci podem abrir a porta da casa que Godard falou um dia, Tarantino está entre os grandes, não há sombra de dúvida.
Falar que Quentin Tarantino é um dos maiores cineastas de todos os tempos também parece pouco; depois de ver/ouvir a estória ambientada miticamente na histórica 2ª Guerra Mundial, acreditamos poder contemplar em primeira mão um dos maiores narradores em plena atividade, refinando-se rigorosamente.
Porra, falar do filme?! Talvez com os amigos durante uma noite toda - aos berros! Talvez produzindo um ensaio durante uma semana toda - revendo e relendo!
O que acontece é que o que Quentin Tarantino faz é um cinema que já existe. Como Ronaldo Passarinho falou de Michael Mann acerca de Inimigos Públicos, é "cinema de novo", não cinema novo. Tomar a História do Cinema como Mito e não a História Literária como Ciência é ensinamento de Sergio Leone, de Jean-Pierre Melville, de Jean-Luc Godard. Contar sua estória se valendo de emoção, com a câmera e a banda sonora em ação negritando a narrativa cinematográfica é lição de Fuller e todos os grandes cineastas americanos. Ir além do "bom gosto" e ultrapassar a barreira para atingir os extremos é lição de Fulci e todos os grandes cineastas malditos. O fato é que Tarantino é um virtuose da sua ferramenta, um pensador moral do seu tempo, um iconoclasta anarquista e um artista extremamente sensível.
Um pianista tem seu instrumento e 7 notas para criar uma música, as combinações são infinitas. Um escultor tem um material sólido, um martelo, algo que ele bata com o martelo, as formas são infinitas. O cineasta tem um arma chamada película e - meu deus! - o que se pode fazer com ela...

p.s: os judeus podem dormir um pouco mais em paz, porque além de ser um faroeste, um filme de guerra (sub-gênero missão), uma comédia de humor negro, é um filme de Vingança. Aquela vingança que não pode se ler nas páginas de História, poderá ser vista por centenas de anos nas imagens do Mito.

Mateus Moura.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Prefiro a anti-homenagem: a constatação subjetiva do fato jornalístico


Admito que sempre tentei fugir dos apadrinhamentos, mesmo meu pai, meu professor de escola... sempre fui um defensor ferrenho do auto-didatismo e do caminho individual. Contudo, com o tempo, sinto que é impossível fugir de certas figuras que marcam seu caminho. Sem o amor do meu pai pela nova Hollywood (antes mesmo dele saber que Kubrick, Coppola, Scorsese, De Palma faziam parte de um “movimento” intitulado assim) provavelmente eu não me apaixonaria pelo cinema. [Ou talvez sim, quem sabe?] O fato é que, talvez, se eu não conhecesse Fábia Cruz, e por isso Adolfo Gomes e Aerton Martins, eu não ouviria da boca do primeiro, ao se despedir de Belém para morar em Salvador, que o cineclubismo na cidade agora era com a gente, depois de me emprestar tudo do Bresson e do Glauber e discursar quase chorando sobre o último filme do Clint. Não me emprestaria o Aerton a sua coleção de filmes do Fuller, seus clássicos do horror... o fato é que se eu não conhecesse eles talvez eu não enxergasse nunca que a fraternidade e o compartilhamento daquilo que se ama é o caminho mais bonito e construtivo em termos de cultura e conhecimento. Através da Fábia também conheci o Max Andreone, que abriu várias portas para mim, de vários cinemas, quadrinhos... se eu for falar de Felipe Cruz, Cauby Monteiro e Miguel Haoni então, aí vai ser falar do meu aprendizado diário... nem quero tentar, não é a hora, nem o lugar.
Quero falar de outra figura hoje, uma que mal conheço pessoalmente, mas que prefiro não conhecer tão bem mesmo, porque quero falar dela como a respeito: como crítico de cinema. É verdade que já discordei de muita coisa que ele já falou (apesar de ter concordado muito mais), já recebi criticas suas, e já o critiquei, mas existe respeito maior? O fato é que a partir do próximo domingo – verdade seja dita – no jornalismo impresso belenense não haverá mais alguém que fale de cinema. Para falar dos filmes que passam sempre vai ter com certeza, já tem... mas para falar de cinema mesmo, Ronaldo Passarinho era o último, o único.
Se a minha geração – e a anterior a minha - acompanhou algum pensamento cinematográfico de um conterrâneo que tenha nível para competir com os melhores críticos do Brasil, este foi o pensamento de Ronaldo. Odiado por muitos pela sua irreverência, amado por muitos pela sua sinceridade, sempre em busca de uma linguagem inteligente e acessível, ele sempre escreveu movido pela paixão, munido pelo estudo incansável. Verdade seja dita: sem Ronaldo eu não conheceria Mario Bava, Lucio Fulci, Dario Argento, James Gray, Chan-wook Park, Joon-ho Bong, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, e muitos outros cineastas que hoje são referências para mim.
Alguns amigos meus julgam Passarinho como um verdadeiro “Godfather” mesmo, e,“va benne”, eu não chego a esse ponto. Mas, pesquisando toda a fortuna crítica que foi escrita no Pará, sem pensar duas vezes, troco tudo que veio antes (e isso deve dar mais de 50 anos) por qualquer texto em que o Ronaldo defenda violentamente o cinema de gênero, ou qualquer artigo em que ele agradeça emocionado a um cineasta por fazer cinema ao invés de discussão política.
Como o próprio Ronaldo prega: sem nostalgias, sem chororô... escrevo este texto para entender minha relação com esse crítico, e o que significa este fato jornalístico. Ronaldo Passarinho influenciou e influenciará por muito tempo o pensamento crítico de quem acompanhou o seu percurso, seja para se aproximar ou para se afastar... mesmo depois de morto, continuará vivo, atormentando com seus grunhidos a nossa relação com o cinema... como um zumbi, como o zumbi de Lucio Fulci que ele nos apresentou.


Mateus Moura.