Os apocalípticos que durmam ou suicidem-se de uma vez, o Cinema respira a plenos pulmões.

Drive.

Títulos, palavras, assim como as elipses e os intervalos, parecem revelar muitas vezes seus sentidos através de veredas suaves. Como o nome do Arcano VII é 'O Carro', o nome do “conto de fadas” de Refn é 'Drive'. Do personagem principal – da lâmina e da película – não nos é revelado o nome próprio. Ficamos com sua imagem, apenas. Não precisamos de mais nada. É que assim como o personagem d’O Carro, o motorista deste filme não quer sussurrar acerca do ego, mas do Eu. Não é um humano, é um mito – já é o Enamorado, agora é também o Condutor (ou o Conduzido pelo Eu?). Faz o que tem que ser feito. É movido pelo sentimento regido pela ética – subsumida a sensação, a emoção, o intelecto, a intuição e a arte. Para conhecê-lo devemos, como espectadores, assistir seus atos. No Cinema assim postulou Hawks, mas existem outras facetas dessa linguagem...
Drive. Uma única palavra simboliza tudo o que este filme representa em sua essência: Que Diretor! O ritmo de suas transições, as respirações de suas cenas de ação (interior ou exterior), a melodia de seus banhos de luz e sombra, a apoteose de suas câmeras lentas, suas sobreposições, seus contracampos guardados no silêncio, sua mise-en-scéne. Sim, de novo, “pôr em cena” – não há como não se inebriar com mortes tão belas: são poemas visuais, descrições dramáticas que atingem o estado pictórico mais sublime!
Do “novo tradicional”, Drive é uma das navalhas mais rigorosa e sensivelmente forjadas, atravessa-nos as veias, causa-nos vertigem, adentram o nosso sangue. Acompanhar esse balé de imagens-movimento reacendeu o meu fascínio por esse cinema que a todos contaminou.
E me deu vontade, mais uma vez (mesmo que distante recentemente desse cinema), de louvar novamente os velhos mestres: Hawks, Ford, Lang, Walsh, Preminger, Hitchcock, e Leone, Melville, Siegel, Hughes, Ferrara. Mas não devo cair no saudosismo, assim como Refn e todo o grupo de cineastas que citei mais acima não cai. Lembrando a célebre sentença de Henri Langlois, “o cinema é um produto comercial e como tal deve ser queimado; mas atenção, queimado pelo fogo interior”. Assim renascem das cinzas todos esses novos mestres. Clint os acompanha. De Michael Mann, Nicolas Wedding Refn é o filho mais singular. E a Juliana Maués tava certa: Drive realmente é um dos grandes filmes de 2011.
Mateos.