Tem grandes cineastas que fazem obras-primas a vida toda, e quanto mais velhos, melhores. E grandes cineastas que, apesar de continuarem num nível de “grandes cineastas”, não repetem mais a genialidade da juventude.
Na minha opinião, o último grande filme do grande cineasta Martin Scorsese foi Cassino, em 1995. E lá se vão 15 anos. E não porque ele tenha feito filmes medíocres diante do contexto contemporâneo, mas medíocres diante de sua obra, e da história do cinema. Sim, por que acredito que um cineasta como Scorsese deve ser analisado nesta seara: a das obras importantes para história da arte que ele ajudou a colocar no lugar onde se encontra.

Por estimá-lo como um dos grandes, fico na dúvida se o problema é com o meu olho míope, minha curta percepção. Refleti bastante se deveria escrever ou não. Vejo isso nas críticas por aí, esse medo em levantar a voz contra o canonizado (e cinéfilo gente boa) Scorsese, que deu tanto prazer e conhecimento a toda uma geração. Se é heresia levantar a voz para Scorsese, ué, vamos lá. Me agrada a conduta de homens como Glauber Rocha, que detonaram obras e autores e, na revisão, as resgatou e as idolatrou. Mudar de opinião é obrigação de qualquer crítico, denota evolução.
Vejo milhares de pontos para se colocar em evidência na obra, se o caso for elogiá-la. É o mesmo problema que encontro nos filmes de Truffaut. Peguemos “A noiva estava vestida de preto” por exemplo, é um filme cheio de idéias áudios-visuais interessantíssimas, idéias narrativas geniais, idéias, idéias, idéias... Truffaut era um homem tão inteligente, um dos mais inteligentes que existiram na história do cinema, mas na hora de ser o metteur-en-scène não tinha aquela manha, fazia cenas interessantes até, tocantes até, mas não atingia um Hitchcock, creio que nem um Chabrol. Por que, se ele sacava tudo de cinema? Questão de talento, acredito; como ele mesmo pregava: “questão de vocação”.
E quando se tem essa vocação, esse talento nato? E ele ainda é potencializado com a apreensão cada vez mais específica da técnica, alimentado pela apreensão cada vez mais abrangente da cultura? Como, paradoxalmente, vai se esvanecendo? Como a experiência pode não significar sabedoria, mas velhacaria? São questões que não serão respondidas, eu acredito, mas que são reconhecidas, em casos como o de Dario Argento, e o de Martin Scorsese.

Felipe Cruz disse que “parece que ele deixou de ser gênio pra ser inteligente”. Isso me lembra o Truffaut, na sua passagem da crítica pra realização. Dos pontos que posso considerar interessantes no filme todos são características de um homem inteligente, estudioso, amante do cinema, erudito da arte. Pegar o tema da loucura não apenas como conteúdo, mas como forma da obra é o mínimo para um artista (quem assim não o fizesse que nem se considerasse como tal), além do mais ‘Taxi driver’ nos mostra a diferença do “como” e não do “que” ele pode fazer. O “cinema de palimpsesto” que Scorsese, assim como Tarantino, tem feito não pode ser julgado como qualidade, mas como característica autoral, do mesmo modo, no caso de Scorsese, o mundo visto pelos olhos do personagem principal. Tais marcas acompanham o cinema desse autor, mas o filme não pode ser “bom” porque as contém, se assim for, todo filme de Scorsese é “bom” a priori. Falo dessas coisas porque vi o filme ser aplaudido por conter essas características, e não vejo louvor nenhum, já que é o homem que dirigiu Touro Indomável quem está atrás das câmeras.
Falemos essencialmente da poética cinematográfica, esqueçamos um pouco a psicanálise e a história, o roteiro de reviravolta “emocionante”, a trama surpresa, o trauma de culpa, a confusão de identidade. Cito a grande cena do filme, para estabelecer a diferença com o resto – com o que o resto do filme não é. A cena da apresentação do personagem de Max Von Sydow. O flashback, os movimentos de câmera, o plongée, os papéis voando, a decupagem, a morte, o sangue... coisa de cineasta. Aliás, é um filme de cineasta, e a primeira cena também deixa isso claro. Mas onde sobra vigor falta rigor. Acredito que o filme de Martin fracassa, mais um.
Comentei com o Felipe Cruz que o que salvaria o Scorsese era acontecer uma crise no cinema americano, neo-maccarthismo, ele ser exilado, fazer cinema independente. Aí ele ia ter que fazer filme fodido e morrendo de amor pelo cinema. Acho que o roteiro, o Di Caprio, Hollywood, tudo ta atrapalhando. Eu sei que tudo o que ele queria era ser apenas um diretor da grande indústria, como seus ídolos Ford, Hawks, Hitchcock. Mas acredito que se ele olhasse para seus outros ídolos Rossellini, Bava, o seu rumo ia mudar, seu cinema ia encontrar seu habitat natural.
Como amo o cinema de Martin Scorsese! Amo tanto que estragaria a sua vida só pra ele fazer um daqueles filmes de novo. Daqueles das entranhas.
