terça-feira, 13 de abril de 2010

FULLERIANAS PARTE 4

[The Big Red One, 1980]

“Sobreviver é a única glória da Guerra”. (Samuel Fuller)

Depois de “The Naked Kiss” em 64, Fuller dirigiria até 80 apenas dois filmes – sendo um renegado por ele (Shark!, de 69). O mais pessoal filme do diretor maldito e um dos mais belos e tristes retratos do assunto que mais perturbou esse homem, é a obra-prima de Sam Fuller no gênero, mesmo com um histórico de grandes filmes na década de 50.

Glauber Rocha falou depois de ver Rastros de ódio de John Ford que ali o irlandês já é o homem maduro que dominou a vida e apreendeu uma arte. Não existiriam mais especulações formais, os caracteres agiriam como peças resistentes de um artesanato muito além do exercício técnico. Seria a essência humanística que espontaneamente se diria em linguagem que traria a marca do estilista maduro, do inventor realizado. Em “The Big Red One” Samuel Fuller se apresenta no mesmo estado.

“-A verdade é que nenhum de nós fazia a menor idéia do que era a guerra”. Quem, em off, nos narra a estória é o próprio Sam, personalizado e vivido por Robert Carradine; que encarna, voltando no passado, o fuzileiro titular da “Big Red One” na 2ª Guerra que Fuller foi um dia. Mas Lee Marvin (este grande ator!), o sargento, apesar de ser baseado realmente no sargento da Big Red One e que Sam conheceu, é também um alter-ego do Fuller de 68 anos na época do filme, como se o próprio cineasta já tivesse alcançado o nível de maturidade que admirava em seu velho mestre. Já idoso, cansado, simplista, duro e emotivo, Fuller conta, pela última vez, a estória da história que viu com os próprios olhos.

Que espaço social é esse, o do exército? Diferente da vida civil, preocupações banais como hierarquia racial e higiene são dinamitadas, como na cena em que um soldado, antes do exército americano aportar na Sícilia em 43, conta vantagem dos seus parceiros porque tem um papel higiênico e aproveita a ocasião para uma tentativa de humilhação de um “carcamano” ítalo-americano. Os integrantes da Big Red One deixam claro a tolice metendo um fuzil na boca do mal cidadão. Ao aportar na Sicília, a primeira imagem que vemos é a patética cena do homem quase completamente submerso com o braço estendido e o papel higiênico levantado para não molhá-lo. Logicamente vira alvo fácil, e nem chega à praia. Na guerra não há lugar para supérfluos, é sobre vida e morte, sobre uma situação-limite, sobre extremos. Laços de amizade feitos nesse espaço, marcado pela dor, provavelmente perduram para sempre, assim como duras posições morais. O oposto completo também é possível, Fuller não pretende mostrar apenas o negativo ou apenas o positivo, mas tudo.

A efemeridade da vida e a insignificância dos sonhos e da fé são derrubadas por Fuller em uma seqüência com substitutos; que, como todo ser humano, acredita ser especial, insubstituível. Numa delas, Zab recebe a carta da mãe com as felicitações e a notícia da venda de seu roteiro para Hollywood por 15 mil dólares, logo propõe uma festa para o pelotão, dando aos seus amigos o poder de escolher o que querem fazer com uma mulher. A equipe titular imortal tenta responder, mas não conseguem ou são interrompidos. Kaiser “baby face” – mais um cadáver vivo com uso temporário de braços e pernas – sabe o que pedir, e realmente faz um belo pedido. Ele tem fé que tudo aquilo – apesar de tudo – vai acabar bem... pelo menos para ele. Um bombardeio começa, e sua vida termina. Mais um bombardeio começa, mais uma vida termina. No fim, as vidas dos homens viram apenas números e lápides. De insubstituível o cemitério tá cheio.

A que ponto o homem chegou?, se pergunta Sam Fuller. Os campos de concentração, Falkenau. Ao se apresentar o inferno nada é dito, tudo feito de expressões de atores, chiaroscuro, olhos desalmados de vítimas, zooms, travellings, mise-en-scène, foco, emoção. Griff (Mark Hamill) atingiu o seu ápice de tolerância com todo o absurdo bestial da guerra. Quando ele entra no forno há um close: seus olhos são melancólicos e impotentes; há o contracampo: o olhar do esquizofrênico de guerra deitado nas cinzas e ossos de seres humanos. O corpo de Griff reage, faz movimentos mecânicos que ele acabou de aprender com seu inimigo, que engatilhava a arma e disparava – sem balas. Griff têm balas. E usa-as para matar o seu inimigo. Mas não é só aquele homem que ele quer matar. Fuller não mostra mais o contracampo de Griff e enquadra o soldado de frente para nós: espectadores. Griff atira, atira, atira. Em nós; nos homens, na humanidade. Por um momento foi tirado de Griff todo o resquício de amor que ele tinha pela vida humana, e ele teve um lampejo de insanidade.

A seqüência da volta do Sargento Lee Marvin ao lugar que o persegue em seus pesadelos é sublime. O Fuller-Carradine-narrador não sabe o que aconteceu com o sargento, apenas que ele esteve ali na Primeira Guerra. Ele é descrito como ausente, um homem que dá a impressão de estar procurando um fantasma na neblina. Sabemos que ele assassinou um homem, e a culpa o persegue. No mesmo local onde havia esfaqueado o huno sob a sombra da cruz de Cristo, desta vez, dá vida a um recém-nascido. “-Recebemos um monte de medalhas, não por salvar o bebê, mas por matar os alemães”.

Para terminar, Sam Fuller nos mostra em 4 planos-detalhe - durante a seqüência do Dia D na praia Ohama - o que é cinema. “Sua obra continuava a viver como os relógios nos pulsos dos soldados mortos”. A célebre e bela frase de Jean Cocteau acerca de Marcel Proust é revista em imagens, em planos-detalhe. Três vezes o braço do cadáver de corpo anônimo aparece, a água do mar está da cor da água do mar no primeiro plano. O homem está submerso nas águas. A batalha segue... o tempo passa, o relógio vive... o braço – e o cadáver oco - são cada vez mais engolidos, e o mar cor de água se tornou rubro cor de sangue no último plano. Guerra: Fuller: Cinema.

Mateus Moura.

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