sábado, 3 de abril de 2010

Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol

p.s: este texto foi escrito em dezembro de 2009, está sendo postado agora por questões de saudade e apelo para que o espetáculo volte e mais pessoas tenham a oportunidade de assití-lo.


Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia: “- Eu amo o teatro paraense!”. Que bom seria se eu pudesse falar de boca cheia, ao menos: “- Eu amo o cinema paraense!”. Não posso. Não amo. Nunca amei. Amo o cinema feito em super-8 por Vicente Cecim nos anos 70, e alguma coisa dos filmes de Líbero Luxardo, mas teatro paraense, nunca tive uma fagulha. Até conhecer Rafael Couto e sua trupe, até imergir no mundo dos Perifeéricos.
Me perdoem os críticos teatrais da região – se houver algum; e, aliás, não perdôo o silêncio sepulcral se houver – mas sou um amador, falarei como manda o script dos amadores: Eu amo o espetáculo teatral, que vi 3 vezes às 20 horas da noite no Ver-o-rio, intitulado “Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol”.
Teatro de autor com grupo de atores! Parece pouco? O máximo que tinha visto até então era teatro de esquetes com atuações profissionais. Rafael Couto não fez apenas a peça mais bem escrita e dirigida que eu já vi na cidade, mas a que tem o universo ficcional mais fascinante, os personagens mais dramaticamente poéticos e a busca teatral mais eloqüente. Criação, e amor pela sua arte. Do autor, e dos atores.
Simplesmente fui encantado pelo texto. As palavras ditas pelos personagens são de uma antítese tão sábia que a juventude do dramaturgo parece dinamitar o conceito tolo de maturidade. Pois sobre o que é Perifeéricos senão sobre a própria Vida? Tocando em essências, sonhando os delírios, desvelando os sentimentos, problematizando os conceitos, atingindo o realismo interno da fantasia.
E qual melhor meio de expressar sentimentos, sensações e pensamentos sobre os “meros fragmentos de um arquiteto entediado” senão pelo próprio delírio da poesia? Poesia que é feita de vida em corpos que se movimentam e fazem sons, proferindo gestos, olhares, gargalhadas, onomatopéias, palavras: TEATRO: coreografia dos corpos, saída e entrada de cena, esquecimento do ator na persona viva, baile de máscaras, rito dionisíaco, duelo argumentativo, cena melodramática, brincadeiras, jogos, metateatro formam a dança lúdica tecida de luar onde flutuam os personagens inesquecíveis e apaixonantes, contados e esquecidos, e agora vagando entre o sol e o mar, para serem vistos, entre o dia e a noite, na eternidade de alguns minutos de espetáculo.
E como se não bastasse o elenco iluminado: Ícaro Gaya, Nanã Vasconcelos, Alma Gabriela, Karllana Clodovil, Leonardo Bahia e o próprio Rafael Couto, o espetáculo ainda conta com a participação especial do músico italiano Stephano e sua maravilhosa escaleta e a belíssima simplicidade da direção de arte de Maurício França. A sensação de quem já conhece os trabalhos anteriores de Ícaro, Karllana e Nanã é de que são os personagens de suas vidas. Dermond, Fleur e Odorin são realmente fascinantes, e era preciso um trabalho de corpo e espírito que não poderia ter sido melhor realizado por outras pessoas. O personagem do velho Satyr é “coringado” por Leonardo Bahia e Rafael Couto, cada qual com um espírito tal; o primeiro mais sombrio e bizarro e o segundo mais mestre, grandiloqüente e embriagado. Alma Gabriela, em sua estréia teatral, encarna a personagem do mundo real, Rosa. A escolha dela para o papel coube como uma luva na proposta de um ser que se difere bastante daqueles outros seres lúdicos. A cada apresentação Alma parece perder mais sua insegurança de estreante e entender sua personagem em corpo e espírito. A trupe que ela parece querer entrar é a do teatro, e a sensação é que começou com o pé direito.
A idéia de Rafael é seguir com os Perifeéricos, fazendo várias apresentações em vários formatos e encenando estórias desse incrível mundo. Perifeéricos: A começar pelo pôr-do-sol é apenas o primeiro (e incrivelmente bem sucedido) episódio da série. O batizado foi feito, em grande estilo. Ainda não posso dizer que amo o teatro paraense, mas posso dizer – de boca cheia - que amo os Perifeéricos. Ao terminar a temporada de espetáculos, me sinto triste e desesperado, me perguntando como eu poderei seguir sem Dermond, Odorin, Fleur, Satyr e Rosa perto de mim.

Mateus Moura.

Um comentário:

  1. Infelizmente só pude assistir um espetáculo,mas foi o suficiente para que eu saísse encantada de corpo e alma...Estou aguardando a segunda temporada - muito ansiosa - e tenho certeza que será tão maravilhosa quanto a primeira.Não percam a opotunidade de assistir a essa obra prima do teatro paraense!

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